quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Matem suas baratas!

Aos 18 anos, deixei a casa dos meus pais, em Ijuí, fui dividir apartamento com 4 pessoas totalmente desconhecidas em Santa Maria e pude experienciar a incrível, maravilhosa e dolorosa sensação de ver-se totalmente sozinho no mundo. Embora eu tenha demorado para morar sozinha de verdade (sempre dividia a casa com outras pessoas), morar em república me proporcionou muitas dinâmicas e possibilidades de relacionamento, com as quais aprendi muito, mas poucas vezes eu tive a oportunidade de conviver apenas comigo mesma. Exceto agora, só morei sozinha MESMO durante 6 meses, em Florianópolis. E, vejam bem... já saí da casa dos pais há 16 anos (já tem um tempinho, né?)! Posso dizer, sem medo de errar, que se hoje consigo me dar bem com tanta gente e trabalhar bem em equipe, é pelo fato de ter morado com aproximadamente 30 pessoas ao longo da minha vida, todas bem diferentes entre si.

No primeiro ano longe da casa dos pais, descobri que lavar roupa branca e colorida juntas não dava um bom resultado e que toalhas de banho não deveriam ser misturadas com roupas pretas. Cozinhar o básico eu já sabia, minha mãe sempre fez questão de me ensinar, então com essa parte eu não sofri tanto. Aprendi que quando um chuveiro queima, não precisamos comprar outro, é só trocar a resistência - não aprendi a trocar, não! Não cheguei nesse nível ainda... mas descobri que existe essa possibilidade, coisa que, acreditem, eu não sabia antes de sair de casa. Aprendi que a roupa não se estende sozinha e perdi a conta de quantas vezes precisei lavar tudo de novo porque simplesmente esquecia a roupa molhada dentro da máquina (hoje, felizmente, não tenho esse problema, pois minha máquina seca as roupas).

No segundo ano morando fora da casa dos meus pais, aprendi a separar as roupas, fazer brigadeiro, coquetéis com vodka e bolo de cenoura. Nesse período, ganhei a fama de fazer o melhor strognoff do Sul do mundo e também o melhor chandelle. Já o bolo de cenoura, esse só acertei uma vez, mas ficou tão perfeito, que até hoje o Thiago (o amigo que chamei para comer o bolo) acredita que sou uma baita cozinheira (coitado).

Só depois de morar sozinha, eu entendi a diferença entre furadeira e parafusadeira. Mas não tenho nenhuma das duas ainda, apenas um joguinho de chaves intercambiáveis e já me acho muito "macho" por isso. Mas de todas as coisas "de homem" que uma mulher precisa fazer quando mora sozinha, a pior delas, pra mim, sem sombra de dúvidas, é ter que matar baratas! Sério. Eu já pedi para o meu pai me ensinar a trocar tomadas, porque é algo que eu realmente sinto falta de manjar... mas matar barata é "uó". E eu só estou escrevendo este texto idiota porque acabei de ter que fazer isso. Trocar tomada é uma escolha. Matar baratas, não. A barata fica passeando na tua frente por minutos a fio e você se vê obrigado a agir. Não é uma escolha, é uma necessidade.

Tirando as coisas práticas e cotidianas da vida, o que a gente aprende quando vai morar sozinho é, basicamente, que o mundo nem sempre é legal conosco. Meu pai não estava lá para me defender dos caras mal-intencionados que se aproximavam para se aproveitar de mim, nem para intimidar os bonzinhos perguntando qual era a intenção deles comigo. Quando eu ficava doente, não tinha minha mãe para fazer uma canja e cuidar de mim e eu precisava lembrar sozinha dos horários dos remédios, que eu mesma tinha que ir à farmácia para comprar. Se eu passasse mal no meio da noite (e aconteceu muito, pois eu sofria de gastrite), não tinha ninguém para me levar ao hospital... o jeito era chamar um táxi ou, até mesmo, ir a pé (estudante vive numa pindaíba, né?). Teve uma vez que me deram tanto remédio e eu saí do HU tão drogada, que nem sei quem foi que me levou pra casa! A única coisa que lembro é de ter deitado na maca do hospital e acordado na minha cama, aparentemente intacta (e as meninas que moravam comigo nem ouviram quando eu cheguei).

Hospitais... esta foi outra razão pela qual me peguei pensando no assunto "morar sozinha" hoje. Acordei com uma tosse muito incômoda, que não me deixou ir trabalhar. Liguei para o Centro Clínico e agendei uma consulta com o médico de minha confiança. Aí uma das minhas tias me disse, no whatsapp: "Toma uma canja, Pati". Eu mal tinha forças para levantar da cama para ir ao banheiro, fazer uma canja estava fora de cogitação... é nessas horas que percebemos que estamos sozinhos mesmo. Quando eu decidi, em maio deste ano, que eu queria me separar do meu ex-marido, com quem vivi por sete anos, eu esqueci de colocar "na balança" a canja que ele fazia pra mim quando eu ficava doente - huahuahuahuahuahuahua!!!!

Brincadeiras à parte, se tem algo que eu aprendi neste tempo vivendo apenas comigo mesma é que existe uma diferença muito grande entre ser sozinho e ser solitário. Viver sozinho é uma escolha, ser solitário vai depender da relação que você estabelece consigo mesmo e como encara o fato de viver só. Felizmente, ou infelizmente, eu passei por muitas coisas em meu casamento que me obrigaram a apreciar a minha própria companhia - nem sempre foi assim, pois eu já fui um pouco insegura e achava que, para ser feliz, precisava de alguém ao meu lado. Mas de 2013 para cá, eu fui aprendendo a gostar mais de ficar sozinha na medida em que minha autoestima foi sendo resgatada, ainda dentro do meu antigo relacionamento. Quando eu finalmente percebi que eu me bastava, não fazia mais sentido manter aquela união.

Aprendi que nem sempre ter um companheiro significa que você terá uma companhia, pois existem muito mais coisas entre o céu e a terra, entre o ser humano e os relacionamentos, do que sonha nossa vã filosofia. Entendi, então, que eu já estava sozinha há algum tempo, só faltava eu assumir aquilo para mim mesma, pois muitas vezes ficamos em um relacionamento por comodismo, por costume, por preguiça de ter que conhecer outra pessoa depois, por covardia, por receio de ficarmos sozinhos, por não sabermos colocar um ponto final na pontuação da vida.

Já enfrentei muitos medos por escolher morar sozinha e, pior ainda, LONGE de toda a minha família. Já tive medo de morrer sozinha na maca de um hospital; já tive medo de ser estuprada quando voltava para casa sozinha à noite e um cara estranho, que estava no ônibus, desceu no mesmo ponto que eu e começou a me seguir; já tive medo de terminar um relacionamento e não gostar mais de outra pessoa tanto quanto gostava dele; já tive medo de perder o emprego, não ter mais como me sustentar e precisar voltar para a casa dos meus pais; já tive medo por ter me envolvido com um psicopata; já tive medo de estar grávida de um cara que não me amava. Já passei por muita coisa nesta vida e enfrentei, sozinha, todos esses medos. Sozinha! Eu costumo dizer que, quando saímos de casa, a gente amadurece na marra.

Aí algumas pessoas me dizem: "Nossa, mas como tu tem sorte de ter amigos assim, vizinhos assim...". Não. Eu não tenho sorte: eu tenho coragem! Se eu não tivesse a força de vontade que eu tenho e a coragem que eu tenho, eu ainda estaria em Ijuí, morando e trabalhando com meus pais e jamais teria sequer precisado matar uma barata. Outros já me disseram: "Nossa, mas você foi para Floripa sem ter ninguém lá! Você é muito destemida!". Mentira. Eu tenho medo como qualquer outra pessoa, a diferença entre mim e os outros é que eu enfrento todos os meus medos e posso garantir que vale a pena superar-se. Hoje, não tenho mais medo de estar longe da minha família, não tenho medo de ficar sozinha, nem de ruídos estranhos na casa à noite. Hoje, pra mim, tanto faz morar em casa ou apartamento, afinal, aprendi a enfrentar meus medos...

Então, enfrentem seus medos: peguem suas sandálias havaianas e comecem agora mesmo a matar suas baratas!

Um comentário:

andriely correia disse...

Ameeeeeiiii, nossa definitivamente matar baratas é o ó, mas é uma superação e tanto, e sobre estar sozinha, como diz o velho ditado, antes só que mal acompanhada. Mesmo assim saiba que tem vizinhos que te amam, e que te consideram da família já <3